terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

 

Mudar de Rumo [ I ] «» Hotel Trópico


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** Eduardo Nascimento – O Vento Levou **













Oiçam
Oiçam



E o vento mudou
E ela não voltou


As aves partiram
As folhas caíram


Ela quis viver
E o mundo correr


Prometeu voltar
Se o vento mudar


E o vento mudou
E ela não voltou



Sei que ela mentiu
P'ra sempre fugiu



Vento por favor
Traz-me o seu amor



Vê que eu vou morrer
Sem não mais a ter


Nuvens tenham dó
Que eu estou tão só


Batam-lhe à janela
Chorem sobre ela


E as nuvens choraram
E quando voltaram


Soube que mentira
P'ra sempre fugira


Nuvens por favor
Cubram minha dor


Já que eu vou morrer
Sem não mais a ter




Oiçam Oiçam



Oiçam Oiçam Oiçam


Um dia destes, ao revisitar alguns temas, verifiquei a existência de algumas “pontas soltas” como, por exemplo, no [clicar »» Recital de Piano] ter referido, a determinado momento, que ... Era “chique” ser-se visto(a) no Teatro Avenida num qualquer espectáculo, para no dia seguinte no salão de chá do Hotel Trópico, onde trabalhei durante 2 (DOIS) longos e penosos dias (talvez um dia conte essa minha “nobre” e “espinhosa” missão).......
Hoje decidi trazer à ribalta essa estória, pelo que cá estou a contar como aconteceu essa situação circunstancial.
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Após ter entrado no dia 15 Outubro 1973 em licença registada, já que a passagem à disponibilidade aconteceu a 15 Fevereiro 1974, terminando assim a obrigação de serviço militar, pretendi dar um rumo novo à minha vida. Pretendia “libertar-me” das oficinas a que tinha estado ligado desde os meus jovens 11 anos. Sentia que tinha adquirido com o decorrer dos anos potencialidades para enfrentar outros desafios. Só que não sabia por onde começar. Mas estava decididamente decidido a enfrentar qualquer situação que se me deparasse, desde que obviamente entendesse que seria o pontapé de saída para outras perspectivas que depois surgissem.
Queria dar o meu grito de Ipiranga, não no Brasil, mas na Rua do Lobito, Bairro de S.Paulo/Luanda. Queria adquirir a minha independência, queria ser eu a escolher o meu percurso e dar corpo às “lutas” que desde há vários anos se conflituavam no interior do meu pensamento, do meu ser.
Estava saturado das desgastantes e bastantes "lutas" internas e externas. Era tempo de fazer com que o tempo me pertencesse.

Dei a conhecer em casa esses meus propósitos, essas minhas intenções e, como calculava, a aceitação não foi pacifica. Mas a decisão era minha e estava tomada. Assim, como ainda tinha uns "cobres" sobrantes da tropa e após umas semanas de descanso e de adaptação à “nova” condição de civil, deambulei à procura de não sabia o quê. Sentia-me um náufrago pronto a "agarrar" qualquer tábua de salvação que aparecesse.
Mas Luanda tinha em 1973 respostas positivas para todos quantos quisessem dar o melhor do seu esforço, da sua dedicação ao trabalho. Só não tinha trabalho quem não quisesse trabalhar ou apenas pretendesse emprego e não trabalho. Mas também para estes Luanda sempre “arranjava” alguma coisa. Falei com diversas pessoas, com amigos e conhecidos e promessas foram mais que muitas. Mas a pressa era demais para que ficasse à espera de respostas. Quanto mais tarde acontecesse encontrar a estrada para o novo rumo mais o “velho caminho” se aproximava. A conflitualidade em casa agudizava-se, a tensão era cada vez mais latente, as “velhas” discórdias tornavam-se mais agressivas no confronto das palavras. Mas se até determinado momento da ainda minha jovem vida senti-me sempre forte para o combate, combatendo, não era agora, depois de ter dado “voluntariamente” o coiro à vida militar, que iria sucumbir.

Aqui começa esta minha estória


Um dia, em Dezembro, um amigo procura-me dizendo que um amigo dele lhe tinha dito que ia haver uma vaga no local onde trabalhava e ele, o meu amigo, lembrou-se de imediato de mim e referenciou-me a esse seu amigo. Disse-me qual era o local e que, caso quisesse experimentar, teria que ir no dia seguinte a meio da tarde ter com esse seu amigo, dizer-lhe quem eu era, que ia da parte dele e depois eu veria se aceitaria ou não o emprego.
Agradeci e fiquei a pensar no que me estaria reservado como meu novo emprego. No dia seguinte lá me apresentei ao amigo do meu amigo que por sua vez me apresentou ao gerente, dando boas referências minhas apesar de me estar só a conhecer naquele momento. Mas era aquele “velho” lugar-comum; amigo do meu amigo meu amigo é. E se o amigo lhe tinha dado boas referências minhas ele sentia-se na obrigação de fazer o mesmo. O gerente lá me disse o que pretendia e se eu me iria sentir em condições de iniciar aquela nova actividade, já que lhe tinha dito que nunca tinha trabalhado no ramo mas que estava disponível para o que desse e viesse. Ficou estabelecido que começaria à experiência no dia seguinte, com inicio às 09H00 e saída às 19H00, tendo duas horas de intervalo para o almoço.
Embora tudo fosse novidade para mim disse que sim e ele lá me foi mostrar o local onde estavam os cacifos para troca de roupa e calçado. A zona ficava abaixo do r/c e após descermos e andarmos por uns corredores verifiquei que a cozinha e demais áreas de apoio ficavam também naquela superfície. De seguida levou-me até à rouparia, falou com o responsável para me arranjar o uniforme adequado às minhas medidas, traje esse que teria que estar em condições de já nessa tarde ser colocado no "meu" cacifo para no dia seguinte o vestir. O uniforme era composto por calça e casaco branco/sujo (tipo bege), camisa branca, sapatos bem brilhantes e pretos, assim como as peúgas. O casaco tinha gola ao estilo de Mao Tse Tung, ajustada e apertada no pescoço. Após estas diligências subimos até ao r/c e despedimo-nos, tendo-me desejado boa sorte para o dia seguinte. Ainda um pouco confuso com tudo quanto se tinha passado dei por mim cá fora a sorrir pela “louca” aventura onde me tinha ou ia meter-me no dia seguinte.

Pura e simplesmente ia trabalhar no salão de chá do Hotel Trópico, na Rua Luís de Camões.



Não sei se nessa noite dormi bem ou se ri de gozo antecipado. Sei apenas que nada disse em casa, pois no momento nada havia a dizer. No dia seguinte, primeiro dia, apresentei-me, troquei de roupa e lá me encaminhei para o salão de chá, percurso interno que me tinha sido dado a conhecer no dia anterior. À minha espera já estava o gerente que me apresentou ao responsável do salão e este foi-me dando indicações sobre o que teria que fazer, como proceder, a postura perante os clientes, sorriso, educação, discrição, falar o suficiente baixo para apenas ser ouvido pelos clientes da mesa, etc., etc.
Esse primeiro dia foi fácil pois fui mais um simples observador que interveniente, embora tivesse “feito” umas mesas, mais nas anotações que na prestação do serviço.
O salão de chá tinha uma boa vista panorâmica para parte da Luís de Camões, sendo algumas das mesas colocadas junto às janelas panorâmicas reservadas para determinado tipo de clientela (os das boas gorjas), segundo colegas.

O almoço foi no refeitório do hotel, junto de outros empregados daquele mesmo horário. Fui visto com a curiosidade própria de ser um novo naquele ambiente e não conheci nenhum dos presentes. Findo o dia o responsável disse-me que tinha ficado satisfeito com o meu comportamento, a minha atenção às coisas, mas no dia seguinte já teria que dar “corda aos sapatos”. Um dia chegava, no entender dele, para eu perceber os mecanismos de como tudo funcionava.
No segundo dia já me senti com maior disponibilidade e à vontade que no primeiro, como seria natural. Desenrasquei-me, penso que bem, pelo menos não tive nenhuma observação por parte do responsável e dos clientes, mas deu para eu perceber que não estaria naquelas “funções” por muito tempo. Não era aquilo que eu pretendia para mudar de rumo, para caminhar na tal outra estrada. Mas iria fazer os possíveis para ficar uns tempos, ganhar uns kumbus mas ao mesmo tempo não descurar a busca de outras oportunidades e aguardar respostas.
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Fim de tarde. O tráfego é intenso desde a Mutamba até ao cimo da Luís de Camões. No sentido descendente o fluxo do trânsito não tem a mesma intensidade. Subo um pouco e verifico que a Livraria Bertrand já encerrou as portas, assim como a Boutique Xabanu e outros estabelecimentos comerciais. Olhando mais para cima vislumbro o magnifico recorte de granito branco onde se ergue o imponente monumento à Maria da Fonte.



Penso um pouco e retrocedo descendo a Luís de Camões até à Mutamba onde apanharia o maximbombo da Linha 4 [S.Paulo] ou o da Linha 17 [Cuca], deixando-me este frente à Japonesa ou ao Café Ginga, ambos na Paiva Couceiro. Depois continuaria a sua marcha pela Francisco Newton, atravessaria a linha férrea e finalmente faria o percurso interno do Bairro da Cuca. Passo pelo Adão e o Aquário [género discotecas de convívio] que ainda se encontravam fechados, pois a noite ainda não era suficiente noite para que as portas se abrissem. Verifico que a Rua de Nossa Senhora da Muxima, onde se situa o colégio S. José do Cluny, também está repleta de trânsito. Está-se na chamada hora de ponta. Continuando a descer vejo a meu lado esquerdo a esquelética e pobre estátua a Luís de Camões.
O grande poeta da língua pátria teve uma existência miserável, morreu pobre, esquecido e mesmo em estátua quiserem perpetuá-lo dessa forma indignificante.
*** Oh! Ditosa pátria minha que tão mal tratos aos teus filhos dás ***.

** Estátua a Luis de Camões **


Na Mutamba o trânsito é quase caótico, apesar dos esforços dos sinaleiros. Autocarros, maximbombos, veículos de toda a espécie faziam dos cruzamentos da Pereira Forjaz com a Vasco da Gama, Luís de Camões e Salvador Correia autênticos novelos difíceis de desenvencilhar.

** Um aspecto do Natal do Sinaleiro **


Passo pela Charcutaria Francesa, ponto quase "obrigatório" de paragem, e está à cunha. O balcão é pequeno demais para tanta clientela sequiosa. Os rissóis de camarão são a excelência da casa. Grandes, apenas com uma pequena cobertura fina e estaladiça, sendo o seu interior bem recheado do bom e apetitoso camarão dos mares de Angola e são uma tentação ao fim de cada dia de trabalho. As mesas do r/c e do primeiro andar estão praticamente sempre ocupadas e há quem espere que alguém “vague” uma para a ocupar.
Entretanto o néon de vários tons dos reclamos produziam o seu efeito luminoso no já escurecer de Luanda, fazendo com que a noite começasse a ficar colorida.



Penso em prosseguir pela Sousa Coutinho até ao Largo da Portugália mas abandono a ideia e vou para uma das filas dos autocarros/maximbombos. Iria no que de entre o 4 ou o 17 saísse primeiro.
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Dia terceiro. Entro e sou chamado pelo recepcionista que me diz que o gerente pretende falar comigo antes de me despir/vestir. Pergunto-lhe se sabe qual a razão, respondendo que desconhece. Estava a afastar-me do balcão quando aparece o gerente que me convidou a segui-lo até ao seu gabinete. Lá entrados diz-me para me sentar e vai directo ao assunto, mais ou menos isto; ... que eu estava a adaptar-me bem ao lugar, atendendo a não ter experiência anterior, e demonstrava atenção, postura, inteligência, bom comportamento, boa empatia com os clientes e colegas ou seja, tudo de bom. Se ele pensasse que o meu ego “inchasse” com todos aqueles elogios bem podia continuar com eles, pois eu não era e nunca fui dado a fazer as coisas bem para me gabarem ou dar nas "vistas". A vida também já me tinha proporcionado um capital de experiência suficiente para que encarasse de forma totalmente indiferente o receber ou não elogios. Eu é que tinha que me julgar, eu é que sabia se estava ou não a cumprir bem o que eu de mim pretendia, exigia, pois fazia diariamente auto análise e introspecção. E no dia seguinte procurava corrigir o que de menos positivo ou de menos bem teria feito no dia anterior. Ainda hoje é assim, mas com menos ênfase.
Neste aspecto penso que tanto eu como meus irmãos tivemos e mantemos esse mesmo padrão comportamental. Como diz Marius70, meu irmão, o estarmos bem connosco é estarmos bem com o mundo e é dessa massa que somos moldados. A perfeição não é possível mas se ficarmos perto dela já é bom ….

Ouvi-o e fiquei a aguardar a chegada do tal mas que de principio precede sempre o que se pretende depois da retórica. Mas, diz o gerente, existe um aspecto que não lhe disse quando da nossa primeira conversa e nestes dois dias em que tem estado à experiência. Ficamos a aguardar o resultado da sua adaptação e como nos agradou temos o propósito de fazer com que fique, que continue. E como por certo não haverá impedimento de sua parte pode sair e ir ao barbeiro desfazer a barba, pois é o visual que pretendemos que tenha, agora que vai fazer parte do pessoal do hotel pois, como terá verificado, só o senhor é que usa barba. Fitei-o e creio não ter demonstrado alguma emoção no olhar, talvez apenas perplexidade. Não estava a acreditar no que ouvia. Lentamente levanto-me da cadeira, estendo-lhe a mão dizendo-lhe que não seria possível ir de encontro ao seu propósito pois de forma alguma eu desfaria a barba. Fazendo ela naquele momento parte de mim seria como estar a desfazer-me a mim próprio, tendo ainda acrescentado que ...eu é que sabia quando e em que circunstâncias é que iria ao barbeiro para esse fim.

** A minha "respeitavel" barba na época **
[mas com mais 2 meses]


Agradeci a oportunidade que me deram, apesar de saberem à partida da minha inexperiência, mas se me tivesse dito logo na primeira conversa o que agora pretendia ninguém teria perdido tempo. Perguntei se podia ir ao cacifo buscar os meus produtos de higiene e deixar a chave do mesmo na rouparia. O gerente compreendeu de imediato que não valia a pena argumentar. Disse-me que podia buscar as minhas coisas e deixar a chave no cacifo pois ele encarregar-se-ia de depois informar o roupeiro para lá ir buscar e arrumar o uniforme que me tinha sido entregue.
Face à minha decisão, que o apanhou de surpresa, eu teria que passar daí a uns dias na contabilidade para receber os dias que trabalhei. Apesar de ter estado à experiência e do pouco tempo, o hotel pagaria o que tivesse a pagar. Mais uma vez agradeci, dizendo que não valia a pena fazer contas. Afinal eu tinha tido uma experiência, embora curta, tinha adquirido mais conhecimentos para o meu curriculum de vida e queria que as coisas ficassem assim.
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Fui buscar as minhas coisas e saí.
No exterior o Sol já há muito que aquecia a terra, os homens, os animais, as plantas. Estávamos em Dezembro do ano da graça de 1973. Sorri e creio que fiquei aliviado. Subi a Luís de Camões, passei pela Maria da Fonte

** clicar na foto **


e parei no cimo dos Combatentes, cruzamento com a Alameda D.João II. Virei à direita na Agência dos Combatentes [onde se compravam os bilhetes para os mais variados espectáculos] e dirigi-me para o prédio dos Sargentos da Força Aérea. Alguém ia ficar feliz por me ver àquela hora e com toda a certeza que eu ficaria para almoçar, talvez ficar até ao fim da tarde e mesmo lá jantar. Ela não ia ter necessidade de colocar a rodar o “Ansiedad” de Nat King Cole, canção que ouvia sempre que aguardava o meu aparecimento e da qual aprendi a gostar, porque um dia lhe perguntei o porquê, porque nesse dia ela me disse do porquê.
Mas isso é uma outra estória.

** cruzamento dos Combatentes com a D.João II. Visivel o Café Palladium e o barracão dos matraquilhos onde mais que muitas vezes joguei umas partidas com meus irmãos e amigos **

Quanto ao mudar de rumo para a nova estrada da vida rapidamente a encontrei e de forma imprevista. No vaguear pela baixa na continuidade das minhas buscas estou a atravessar da Câmara Municipal para a Fazenda Nacional quando ouço, vindo da Pereira Forjaz para a Marginal, o travar e um “chiar” de pneus. A meu lado pára uma Lambreta, vejo o condutor dela sair, chamar pelo meu nome e dar-me um grande abraço de alegria, de satisfação. Era o Maurício, o que tinha estado comigo em Zau-Évua. Foi desse encontro que surgiu o tal emprego que procurava mas que não sabia qual era.
Que Mudou Radicalmente o Meu Rumo de Vida.

Saudações e Inté